Páginas

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Quanto mais o tempo passa mais me identifico com isto



A estada no hospital e os primeiros dias em casa após o parto afiguram-se-me como dias ali a pairar entre o sonho e o pesadelo.
A possibilidade de tudo isto se traduzir a uma romaria de entra e sai e opiniões de todos a quem não se pergunta nada é coisa para me dar urticária nervosa antecipada.
À exceção dos médicos e/ou enfermeiros não quero saber se o meu leite não presta, se os pontos foram muitos ou poucos, se fui piegas ou corajosa, se pego bem ou mal na bebé, muito ou pouco… nada! Não quero saber nada! Ou melhor, quando quiser saber terei a humildade de perguntar. Quando precisar de ajuda terei a humildade de pedir!
Sobretudo quem já teve filhos deverá ter a sensibilidade de perceber quando precisamos de momentos a três (entenda-se meu, do pai e da bebé). Porque é o nosso momento. São meses a aguardar o momento do nascimento da nossa filha e queremos guardar tudo no nosso coração e memória, queremos partilhar momentos só nossos, e precisamos de privacidade e intimidade para o fazer.
Parece que por vezes muitas pessoas têm dificuldade em perceber que a bebé não se vai esfumar de um momento para o outro. E parece que acham que têm o direito de estar tanto com ela como nós que somos pais. Não têm!
E isto já para não falar no desconforto e cansaço sobretudo da mãe. Trouxe uma criança ao mundo. Provavelmente nas primeiras horas/dias tudo terá uma dificuldade física acrescida. Precisa que o intestino trabalhe, que o ar todo que estava preenchido pelo bebé também saia (não, as senhoras não dão puns, à exceção do pós-parto), precisa de descansar nos momentos em que o bebé o permite… e se é um entra e sai que não acaba… não é preciso explicar mais nada pois não?
Tirarem-me a bebé dos meus braços ou tentarem acorda-la quando está a dormir é coisa para deitar cá para fora o pior lado de mim. Ativem os meus sensores de proteção leonina e é melhor fugirem!
O curso de preparação para o parto tem sido muito elucidativo no que a esse assunto diz respeito e é por isso que cada vez sinto mais o que encontrei aqui:

"Então vamos cá recapitular – No Hospital:

– Não aparecer no hospital sem avisar;
– Não respirar para cima do recém nascido;
– Lave as mãos e desinfecte. Não questione;
– Não ousar pegar, tocar, fazer o que quer que seja com a criança sem pedir autorização – não é um nenuco, é um recém nascido;
– Não beijar as mãos do bebé. Não questione;
– Não ficar mais do que 15 minutos;
– Nunca tirar o bebé do colo da mãe ou do pai (sob pena de não voltar a colocar-lhe as mãos em cima até ter 18 anos);
– NUNCA, NUNCA ir em rancho ( 20 pessoas, com o objectivo de ocupar toda a tarde de visitas – as visitas são isso mesmo, chegar, olhar, conversar e sair – curto e simples – qualquer atitude contrária será notada como uma tremenda falta de respeito);
– A mãe vai dar de mamar? Respeite o espaço. Nem toda a intimidade do mundo lhe dá a liberdade de ficar embasbacado/a a olhar. É um momento intimo. Não obrigue a criatura a pô-lo/a a andar do quarto. Respeite;
– Guarde as suas crises, artroses, desgraças, queixumes, para outra altura. O momento é do Pai, da Mãe e do bebé;
– GUARDE OS PALPITES E AS OPINIÕES PARA SI.
Aparte disto acho que seremos todos muito felizes ;)
Respeite se quer ser respeitado. Oiça se quiser ser ouvido(a)."


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

E assim param os nossos serviços públicos #2



Centro de Saúde: continuo com as consultas regulares (mensais) no centro de saúde.
Chego, sou sempre atendida por alunos de enfermagem diferentes, juntamente com a enfermeira chefe que se encosta a um canto, sou pesada, medem-me as tensões e verificam se está tudo bem com a urina.
E tudo termina bem quando faço isto sem abrir o bico. Nas últimas consultas falei na possibilidade de frequentar o Curso de Preparação para o Parto. Foram adiando até à última consulta onde me informaram que é dado numa unidade de cuidados continuados perto do Centro de Saúde, com duas alternativas: de manhã por volta das 10h, de tarde por volta das 14.
Sim senhora, muito bem. Portanto, trabalho, tento faltar o mínimo possível, sendo que tenho de faltar sempre que compareço a uma consulta no SNS e para receber uma preparação/formação gratuita, a que tenho direit,o falto a torto e a direito a meio da manhã ou a meio da tarde!!! Acho fantástico que nem sequer coloquem as aulas mais nas pontas do horário de trabalho… no meio está a virtude! Por isso chego à conclusão de que este curso foi feito para quem não trabalha, para quem vive de subsídios e para quem está de baixa… os outros – assim, tipo eu!!! – se querem aprender vão para um curso numa instituição privada e suportem mais um encargo porque esta coisa da gravidez fica muito barata!
Alguma queixa que tenha também já aprendi que é melhor guarda-la para mim. Ninguém quer saber ou solucionar e termina por aí.
Atualmente pensar em ir ao HSJ até me causa urticária, juro que fiquei mesmo apavorada e o que me vale mesmo é o seguro de saúde porque percebi que os serviços de saúde estão pela hora da morte. Os profissionais parecem-me uns frustrados que estão a cumprir horário e que pouco se preocupam com as pessoas – reparem que disse pessoas!!! e não números – que lhes passam pela frente.
Contas feitas e basicamente mantenho as consultas no Centro de Saúde para ter o registo atualizado para a bebé quando nascer. O parto, se tudo correr como planeado, será no privado e como tal o SNS folgado para tratar mal outras pessoas e eu com despesas que de alguma forma me parecem injustificadas. Se as coisas funcionassem minimamente bem não havia necessidade.
Ah, mas posso descontar no que pago para a segurança social o encargo que tenho com o seguro? Não senhora!!! A segurança social é para sustentar os outros, comigo a contribuir, o seguro de saúde é opção.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

E assim param os nossos serviços públicos #1



A gravidez tem sido um verdadeiro abre olhos no que a serviços públicos diz respeito.
Bendita a horinha em que fiz um seguro de saúde pois, caso assim não fosse, acho que já estaria com esgotamento nervoso a tender para a histeria total.
Quando engravidei, pelo estado emocional em que me encontrava, fui aconselhada a ser seguida pelo Hospital S. João. Aceitei a sugestão – devia estar altamente alcoolizada quando o fiz!!! – e lá compareci à primeira consulta.
Na Lei do Trabalho é mencionado que devemos tentar marcar estas consultas, ecografias e afins fora do horário de expediente. No Serviço Nacional de Saúde acho que todos sabemos que é missão impossível. Fora de questão! É ir, sem pressas, e sem hora expetável de retorno porque mesmo que seja a primeira do dia e tenhamos ido uma hora mais cedo, saímos de lá sempre umas 3 ou 4 horas depois do início previsto. (Ou azar meu!)
Mas nem é acerca disto que reclamo. Saí da primeira consulta a chorar baba e ranho, de forma sôfrega, e com dificuldade em respirar. A médica foi um amor de senhora. Testou-me até ao limite, como ela própria o disse, para verificar que de facto estava emocionalmente instável. Muito bem feito, assim é que dever ser. (Ou azar meu!)
Primeira eco: Hospital São João. Fui enxovalhada. Saí de lá a sentir-me a pior mulher do mundo. Completamente irresponsável porque apesar da luta pela perda de peso que tinha travado ao longo do último ano a médica fartou-se de mencionar o meu atentado público por engravidar sem ser magra, porque me ter deixado chegar àquele ponto e sei lá mais o quê… saí de lá a chorar, com uma única imagem da eco completamente impercetível do que seria aquilo e com um julgamento próprio que acho melhor nem confessar.
Nessa altura decidi riscar o HSJ da minha gravidez. Fiz uma reclamação por escrito. Recebi resposta a lamentar o sucedido e a possibilitarem-me a marcação com outros médicos. Gato escaldado de água quente tem medo e felizmente posso ser acompanhada no privado. Gravidez no HSJ… no way!!!
O mais engraçado foi que no dia seguinte (ao da eco no HSJ) tive ecografia no privado. Acordei em pânico porque não suportaria outro médico a chamar-me irresponsável e a dizer-me que não conseguia ver nada devido à camada adiposa (ou banha em excesso!). Fiz o caminho todo a dizer que não ia a mais médicos durante a gravidez se se verificasse algo do género. Completamente aterrorizada entrei para o gabinete médico e ali tirei as minhas dúvidas. Tinha sido mesmo enxovalhada… Este médico dotado de uma capacidade visual e ecográfica distinta viu tudo, explicou-me tudo, mediu tudo… sem qualquer comentário acerca da minha forma física ou outros comentários quotidianamente ordinários. Saí desta ecografia com vontade de chorar de alívio. Não era nenhuma anormal e irresponsável. Não era nenhuma piegas, mimada… tinha sido tratada como uma pessoa e tinha visto a minha bebé (quando ainda não sabia que era menina) tal como achava que devia acontecer.
Mas isto foi apenas o início do contacto com os serviços públicos…